Moda e beleza que nascem do agro

modapor Ana Luísa S. Cândido Rosa*

A princípio tentar imaginar a correlação entre o agronegócio e a indústria da moda e da cosmética (beleza) pode parecer algo desacertado, afinal, qual o elo pode existir entre essas realidades “tão distantes”? Como pode haver encadeamento entre o meio rural e um ambiente excessivamente urbano, polarizado e sofisticado?

Antes de qualquer coisa é importante desmistificar a ideia impregnada, principalmente nos grandes centros urbanos, de que existe (de forma fictícia, por óbvio), uma hierarquia social, onde aquilo que é advindo do campo é inferior ao contexto das cidades – suposição essa de extrema afronta, haja vista o número inimaginável de matéria prima que o agro oferece justamente para as urbanizações.

Pois bem. Regressando ao questionamento inaugural, de fato as duas indústrias (moda e cosmética), estão intimamente ligadas ao agronegócio, seja no aspecto social, político, econômico ou jurídico, como será delineado abaixo.

Veja, ao se fazer uma análise lato sensu do presente tema facilmente se constata a ascensão das redes sociais nos últimos anos, evidenciando uma supervalorização e glamorização daqueles que ocupam somente uma das pontas desses nichos de mercado (moda/cosmetologia), quais sejam, as grandes marcas, os estilistas, os modelos e os influencers.

Ora, mas a indústria da moda, por exemplo, exerce um papel fundamental na estrutura econômica do país, não é mesmo? E a resposta é sim! Na referida análise não se pretende desmerecer a importante função desse segmento, muito pelo contrário, haja vista sua relevância no cenário mundial, inclusive naquilo que diz respeito ao número de empregos gerados, a exemplo disso o próprio Brasil, local em que, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – ABIT, gera cerca de 1,5 milhão de empregos diretos e cerca de oito milhões de postos de trabalho indiretos[1].

Em contrapartida, embora exista um enaltecimento das figuras anteriormente citadas (marcas, estilistas, modelos, influencers), aqueles que realmente subsidiam essa dinâmica com um trabalho árduo, são na grande maioria das vezes esquecidos e ignorados.

Eis que muitas pessoas nunca pararam para pensar, mas é o meio agrário que fomenta tanto a indústria da moda como a cosmética, a exemplo disso tem-se a produção do algodão para as tecelagens, a criação de ovelhas para confecção da lã, de gado para extração do couro, do bicho da seda para fabricação da seda, as gorduras vegetais e animal para criação de produtos de cuidado e higiene pessoal em geral e assim por diante.

Nessa perspectiva, de acordo com os dados publicados nas redes sociais da “AgroLiga” – Entidade de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas,  a matéria prima mais conhecida no mundo da moda é algodão, amplamente produzido no Brasil pelo setor agrícola.[2] E mais, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos[3]  o país também é o terceiro maior consumidor do mundo em produtos de beleza, ou seja, dá-lhe produção de matéria prima a fim de abastecer os brasileiros e ainda servir à exportação.

Outrossim, a demanda é tão crescente (elo entre o agro e as indústrias da moda/cosmética) que no viés jurídico os escritórios de advocacia têm se amoldado a fim de se adequarem à elaboração de contratos absolutamente contemporâneos, à título de elucidação, tem-se aqueles instrumentos a serem desenvolvidos com o propósito de viabilizar juridicamente a entrega do café, contudo, não para o ramo alimentício, mas desta vez, trata-se da comercialização do grão ainda verde para extração de óleo essencial usando nas formulações cosméticas.

Nesse sentido, valendo-se da licença poética sobre o famoso ditado popular que diz “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”[4], faz-se necessário atribuir mérito a cada uma das pessoas que fazem parte dessa cadeia produtiva, ou seja, o produtor rural que por tantas vezes é ignorado precisa ser reconhecido como verdadeiro alicerce do universo da moda e da beleza.

Ora, não fosse pelo trabalho daquele que está no campo a indústria sequer teria o que produzir, por isso é tão importante dar publicidade, dialogar sobre o assunto e de fato cuidar/atribuir a devida importância ao grande herói brasileiro, o agronegócio – que fomenta as mais variadas vertentes de indústria, (“Agro é Tudo”) e alavanca e economia do país.

WhatsApp Image 2020-05-09 at 13.00.36*ANA LUÍSA S. CÂNDIDO ROSA é advogada, graduada e pós-graduada em Direito do Trabalho pelo Centro de Ensino Superior de Catalão – CESUC (GO), Pós-Graduanda em Direito Agrário e Agronegócio pela Escola Superior de Direito (ESD) – Proordem Goiânia (GO), associada à UBAU, integrante do Grupo Mulheres do Agro Catalão e Região (GO) e colaboradora do Escritório JTorres e Mariano Consultoria Jurídica de Catalão (GO).

NOTAS:

[1] Segundo dados da Abit, em 2017, o setor de confecção e têxtil teve um faturamento de US$ 45 bilhões, em todo o país. Durante aquele ano foram comercializadas mais de seis bilhões de peças de confecção no varejo (http://www.pi.agenciasebrae.com.br/sites/asn/uf/PI/setor-de-moda-e-confeccao-e-um-dos-principais-geradores-de-emprego-no-brasil,4195fcde098d5610VgnVCM1000004c00210aRCRD).

[2] O Brasil é o 5º maior produtor de algodão, contabilizando 1,7 milhões de tonel e o 2º maior exportador, contabilizando 1,6 milhões de tonel.

As exportações que contabilizaram U$$ 2,64 bilhões em 2019 são destinadas principalmente à: China, Vietnã, Indonésia, Bangladesh e Turquia.

Em 2019 o faturamento de vendas de vestuários e calçados alcançou R$ 14 bilhões.

O Brasil conta com 27.000 indústrias em toda cadeia têxtil.

[3] Pesquisa realizada pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos junto com o Instituto FSB Pesquisa.

[4] O aludido ditado popular mistura política e religião, uma vez que relaciona a justificação ao pagamento de tributos ou impostos a César, além da devoção ao Cristianismo. Esse provérbio foi dito por Jesus e está presente na Bíblia (Mateus 22:15-22).

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