Sapatos marrons

por Francisco Torma*

A primeira vez que eu falei sobre essa história do advogado agrarista usar necessariamente sapatos marrons foi – creio eu – no I Simpósio de Direito Agrário e Agronegócio realizado pela Farsul e pela UBAU, num longínquo e pré-pandêmico maio de 2019.

Depois da minha fala no evento, onde disse que o agrarista deve sempre usar sapatos marrons porque eles disfarçam o pó, o professor Albenir Querubini veio me dizer que, no momento dessa fala, todo mundo olhou para o próprio pé. Genial!

Essa ideia do sapato marrom é uma brincadeira com o fato da nossa terra – aqui no RS – ser demasiadamente vermelha e grudar – tanto como pó ou como barro – nos sapatos dos profissionais que andam pelo campo.

Maurício Fernandes com sapatos pretos na ExpoDireto. Ambientalista foge à nossa regra?

O professor Maurício Fernandes que o diga, no mesmo ano foi na ExpoDireto calçando lustrosos sapatos pretos que logo ficaram tapados pela poeira marrom. E olha que o pó veio do mero caminhar pelas ruas do parque.

Mas existe uma ideia maior por trás disso e ela não é necessariamente novidade pra quem me acompanha. Frequentemente digo e constantemente reafirmo que o advogado agrarista é profissional jurídico que necessariamente deve conhecer a atividade agrária do seu cliente e estar fisicamente acompanhando a atividade rural.

Além disso, entendo que o profissional agrarista tem como seu maior múnus a criação da ponte entre o universo jurídico – dos fóruns e tribunais – e o universo rural onde as relações jurídicas acontecem.

A beleza desse múnus está justamente no fato de ser o agrarista o elo desta corrente. Ao mesmo tempo em que traduz ao produtor rural as burocracias do sistema legal, também é o porta-voz do homem do campo junto aos poderes constituídos, notadamente o Judiciário.

Na Farsul, estávamos majoritariamente com sapatos marrons.

Pois justamente é no Judiciário que as demandas do campo são postas à decisão e é importante que o profissional jurídico tenha o conhecimento das coisas do campo para que consiga fazer a tradução dos fatos deste universo ao urbano julgador, com seus sapatos pretos.

É pela necessidade do agrarista circular entre campo e tribunal – e transitar bem em ambos os mundos – que fiz esta menção ao sapato marrom. Ele vai bem na terra e não aparenta estar sujo quando entrar nas acarpetadas salas de julgamento. É um clássico.

Mais do que a cor do sapato, o importante é nunca esquecer que o agrarista só pode ser assim definido quando aprender a circular com maestria entre esses dois mundos e trabalhar diuturnamente para aproximá-los.

Preferencialmente, de sapatos marrons.

*FRANCISCO TORMA é advogado agrarista, especialista em direito tributário, coordenador do portal AgroLei, membro da UBAU, professor de direito agrário, palestrante, colunista e escritor. E usa sapatos marrons.

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